Covid-19 e o Olfato: o que sabemos até o momento?

Covid-19 e o Olfato: o que sabemos até o momento?

Este é o terceiro artigo da série Doenças Neurológicas e Covid-19”. Hoje vou tratar de uma manifestação neurológica da infecção pelo novo coronavírus, que vem chamando a atenção: a perda do olfato (chamada anosmia). Os principais sintomas reportados por pacientes infectados pelo novo coronavírus são tosse, febre, dor de cabeça, cansaço, dor no corpo, perda de apetite e diarreia. A perda do olfato, associada ou não à perda do paladar (chamada de ageusia) está bem documentada em uma parcela relativamente grande das pessoas infectadas pelo novo coronavírus (SARS-CoV2).1–3

A importância do olfato

A capacidade de sentir cheiro (olfato) é uma das cinco principais funções neurológicas, além do tato, do paladar, da visão e da audição. O olfato não apenas permite a identificação de aromas, mas é também intimamente ligado ao nosso paladar. Sabe-se que as vias olfatórias transmitem a informação de olfato desde a cavidade nasal até estruturas do cérebro localizadas no lobo temporal e sistema límbico. Estas estruturas integram os circuitos cerebrais responsáveis pelas emoções e memória. Isso explica, o porquê de cheiros e gostos ativarem tão fortemente nossas memórias e emoções. O inverso também é verdadeiro, ou seja, sentimentos ou expressões podem influenciar positiva ou negativamente nossa experiência olfativa! 

Figura esquemática mostrando as partículas de ar (flexa azul) entrando na cavidade nasal e levando o aroma (bolinhas verdes). Os nervos olfatórios, no teto da cavidade nasal (em amarelo), transmitem a sensação de olfato para o cérebro

Anosmia: a perda de olfato

Existem inúmeras causas de perda de olfato e de paladar. Na grande maioria dos casos, a perda é temporária e normalmente relacionada a algum tipo de infecção da via aérea superior, como gripes e sinusites. Outras causas frequentes de diminuição destes sentidos são o tabagismo e o uso crônico de bebidas alcoólicas, além de outras causas mais raras, como tumores e doenças genéticas.

A perda ou diminuição do olfato e do paladar podem ser bastante desastrosas na vida de uma pessoa. Imagine você, não poder sentir o cheiro de um leite estragado na geladeira ou de um vazamento de gás na cozinha! Além disso, a perda do paladar pode também levar à falta de apetite e a problemas nutricionais. Sabemos que o olfato e o paladar trabalham em cooperação, por assim dizer, de modo que uma simples obstrução nasal já nos faz perder o encanto pela comida. Sentir cheiro e poder apreciar uma boa refeição são coisas tão comuns em nosso dia a dia, que só paramos para pensar o quanto esses sentidos são importantes quando, por algum motivo, eles não estão presentes.

Perda de olfato em pacientes com Covid-19

Como disse, a perda do olfato acompanhada de obstrução nasal e coriza podem ocorrer também em casos de infecção por outros vírus causadores de gripe ou resfriado. No entanto, o que chama a atenção no caso do novo coronavírus é que a perda de olfato (e ou de paladar) tem sido observada mesmo na ausência de coriza e obstrução nasal!1

Em um estudo realizado por diversos hospitais Europeus, a prevalência de perda de olfato entre pessoas infectadas pelo novo coronavírus chegou a 85%, enquanto até 88% dos pacientes reportam alteração do paladar.4 Entre os pacientes com alteração do olfato, 79% reportaram apenas uma redução, enquanto 21% apresentaram perda completa da capacidade de sentir cheiro. Em 11% das pessoas, a alteração do olfato ocorreu mesmo antes de qualquer outro sintoma, sendo que 17% apresentaram os sintomas mesmo na ausência de obstrução nasal e coriza. Outro fato interessante é que esses sintomas foram mais presentes em pacientes do sexo feminino e estiveram mais associados à presença de febre.4

Outro estudo italiano publicado há poucos dias, confirma estes achados, porém uma proporção ainda maior de pacientes (65%) apresentou perda de olfato e/ou paladar na ausência de obstrução nasal.3

Alguns autores chegaram a sugerir inclusive que a perda de olfato e paladar pudessem ser usadas para triagem e identificação de pacientes suspeitos de infecção pelo novo coronavírus, para fins de isolamento e teste laboratorial.1,3

O novo coronavírus e o Sistema Nervoso

O exato mecanismo pelo qual essas alterações ocorrem ainda não está claro. Sabe-se que os vírus da família coronavírus têm tropismo (certa predileção) pelo sistema nervoso central, porém não se sabe se o vírus tem capacidade de invadir o sistema nervoso via nervo olfatório (nervo que transmite informação de cheiro para o cérebro) ou via hematogênica (pelo sangue).5 A inflamação da mucosa nasal pelo vírus também explica a perda de olfato, porém não parece ser o único mecanismo.

Até o momento, há apenas um relato de identificação da presença do novo coronavírus no líquor (líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal) de um paciente.7 Vale ressaltar, no entanto, que o fato de um vírus invadir o sistema nervoso não é novidade. Por exemplo, o vírus herpes simples e o herpes zoster são bem conhecidos por se alojarem no sistema nervoso e causarem problemas neurológicos.

Há alguns anos, outros trabalhos já haviam inclusive confirmado a presença de outros tipos de coronavírus (SARS-Cov e MERS-CoV) no sistema nervoso, durante as epidemias ocorridas nas duas últimas décadas.8,9 Em laboratório, foi constatado que outros coronavírus podem invadir o sistema nervoso de camundongos pela via olfatória.10 Por outro lado, até o presente momento, ainda não se conseguiu comprovar o mesmo pelo SARS-CoV2 em humanos.

Entretanto, a observação de problemas neurológicos em pacientes com a Covid-19 em diversas partes do mundo levou a comunidade científica a suspeitar de que a ação direta ou indireta da infecção pelo novo coronavírus no sistema nervoso possa provocar manifestações neurológicas graves, como acidente vascular cerebral (derrame), encefalite (inflamação cerebral) e eventualmente até ser corresponsável pelos problemas respiratórios.2,4,11,12

Ainda não houve tempo hábil para que estudos mais aprofundados sobre os efeitos e interações do novo coronavírus no sistema nervoso humano pudessem ser concluídos. No entanto, diversos institutos de pesquisa nacionais e internacionais têm investido nessa linha de pesquisa e devemos obter mais informações em breve.

Como tratar a anosmia?

            Então, sabemos que a perda do olfato e paladar são sintomas frequentes em pacientes com Covid-19. Como causas destes sintomas temos não apenas os sintomas gripais, como a obstrução nasal, mas também uma provável ação do vírus na mucosa olfatória nasal e nos nervos olfatórios.

Não há tratamento específico para a perda do olfato e paladar associadas a Covid-19. Caso apresente obstrução nasal, a irrigação da cavidade nasal com soro fisiológico pode ser bastante útil para aliviar este desconforto. Segundo pesquisas recentes, aproximadamente 3% das pessoas podem permanecer com olfato e paladar alterados por tempo prolongado, levando mais de 15 dias para melhora completa. No entanto, a boa notícia é que a grande maioria dos pacientes (72%) recuperam esses sentidos entre 8 e 10 dias após a resolução dos sintomas gripais.4

Dicas e sugestões

Finalmente, algumas dicas preciosas. Se você passou ou está passando pela desagradável experiência de perder olfato e paladar devido à Covid-19, mesmo que temporariamente, fique atento e siga estas orientações para não complicar ainda mais as coisas até que se recupere:

  • coloque etiqueta com data de vencimento em itens de consumo, para evitar o consumo de produtos estragados.
  • atente para as etiquetas dos produtos de limpeza para ter certeza de que está usando o produto certo para a função certa, na medida certa!
  • atenção redobrada na cozinha! Lembre-se que enquanto não recuperar o olfato, você será incapaz de sentir o cheiro de algo queimando ou do gás ligado, o que pode ser bastante perigoso.

            Para mais informações sobre o novo coronavírus e como manter-se saudável durante a pandemia, acesse o link e confira uma lista de perguntas e respostas mais frequentes.

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Referências

1.         Bénézit F, Le Turnier P, Declerck C, et al. Utility of hyposmia and hypogeusia for the diagnosis of COVID-19. Lancet Infect Dis. April 2020. doi:10.1016/S1473-3099(20)30297-8

2.         Mao L, Jin H, Wang M, et al. Neurologic Manifestations of Hospitalized Patients With Coronavirus Disease 2019 in Wuhan, China. JAMA Neurol. April 2020. doi:10.1001/jamaneurol.2020.1127

3.         Spinato G, Fabbris C, Polesel J, et al. Alterations in Smell or Taste in Mildly Symptomatic Outpatients With SARS-CoV-2 Infection. JAMA. April 2020. doi:10.1001/jama.2020.6771

4.         Lechien JR, Chiesa-Estomba CM, De Siati DR, et al. Olfactory and gustatory dysfunctions as a clinical presentation of mild-to-moderate forms of the coronavirus disease (COVID-19): a multicenter European study. Eur Arch Otorhinolaryngol. April 2020. doi:10.1007/s00405-020-05965-1

5.         Suzuki M, Saito K, Min W-P, et al. Identification of viruses in patients with postviral olfactory dysfunction. Laryngoscope. 2007;117(2):272-277. doi:10.1097/01.mlg.0000249922.37381.1e

6.         Moriguchi T, Harii N, Goto J, et al. A first Case of Meningitis/Encephalitis associated with SARS-Coronavirus-2. Int J Infect Dis. April 2020. doi:10.1016/j.ijid.2020.03.062

7.         Arabi YM, Balkhy HH, Hayden FG, et al. Middle East Respiratory Syndrome. N Engl J Med. 2017;376(6):584-594. doi:10.1056/NEJMsr1408795

8.         Neuroviral Infections: RNA Viruses and Retroviruses – 1st Edition – Su. https://www.routledge.com/Neuroviral-Infections-RNA-Viruses-and-Retroviruses/Singh-Ruzek/p/book/9781466567207. Accessed April 18, 2020.

9.         Dubé M, Le Coupanec A, Wong AHM, Rini JM, Desforges M, Talbot PJ. Axonal Transport Enables Neuron-to-Neuron Propagation of Human Coronavirus OC43. J Virol. 2018;92(17). doi:10.1128/JVI.00404-18

10.       Gu J, Gong E, Zhang B, et al. Multiple organ infection and the pathogenesis of SARS. J Exp Med. 2005;202(3):415-424. doi:10.1084/jem.20050828

11.       Li Y-C, Bai W-Z, Hashikawa T. The neuroinvasive potential of SARS-CoV2 may play a role in the respiratory failure of COVID-19 patients. J Med Virol. February 2020. doi:10.1002/jmv.25728


Luciano Furlanetti, MD, PhD, FEBNS

CRM 121.022 | Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) | Membro Titular da Sociedade Alemã de Neurocirurgia (ÄK-DGNC) | Membro Titular da Sociedade Britânica de Neurocirurgia (SBNS)| Doutorado e Pós-Doutorado em Neurocirurgia Funcional – Alemanha/UK | Clinical Fellowship Neurocirurgia Funcional – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido | Clinical Fellowship Neuro-oncologia – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido

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