Doença de Parkinson e Covid-19

Doença de Parkinson e Covid-19

Como discutimos no primeiro artigo desta série Doenças Neurológicas e Covid-19: Perguntas e Respostas”, a pandemia pelo novo coronavírus tem causado transtornos e preocupações de magnitude nunca antes vivenciados por nós. O retorno à “normalidade” parece ainda um sonho distante. A atual crise certamente nos fará redescobrir e reinventar um novo estilo de vida, um novo “normal”.

Devido às medidas de segurança para o controle epidemiológico da infecção pelo novo coronavírus, há especial preocupação com pessoas que já apresentam condições neurológicas crônicas, como a Doença de Parkinson.

Sou grupo de risco? Como proceder com retornos agendados para ajuste de medicações ou acompanhamento? Devo interromper os programas de reabilitação com fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia? O que fazer em caso de uso de medicações injetáveis (apomorfina) ou estimulação cerebral profunda? E se a bateria do meu DBS precisar ser trocada? Devo suspender visitas domésticas de cuidadores e outros profissionais de saúde?

Essas e outras dúvidas são extremamente frequentes entre nossos pacientes. Por isso, resolvi compilar aqui uma série de informações embasadas em recomendações de órgãos de saúde nacionais e internacionais, com o intuito de orientar nossos pacientes e familiares. Caso você tenha dúvidas mais gerais sobre a pandemia, veja aqui uma compilação de perguntas e respostas.

Pacientes com Doença de Parkinson fazem parte do grupo de risco?

Em princípio, a Doença de Parkinson per se não é um fator de risco isolado e teoricamente não aumenta o risco de contrair a infecção. No entanto, sabemos que a maioria dos pacientes de Parkinson são idosos e que muitos são portadores de outras problemas de saúde concomitantes (como pressão arterial elevada, diabetes mellitus, problemas pulmonares), que juntos podem fragilizar as condições de saúde. Assim, consideramos que o risco desses pacientes desenvolverem formas graves da infecção pelo novo coronavírus é definitivamente mais alto.

Quais são as recomendações para pacientes com doença de Parkinson durante a pandemia?

O vírus é altamente contagioso e transmitido por gotículas (fala, espirro, tosse) e por contato (mãos e objetos contaminados). Portanto, as medidas mais eficazes são as mesmas orientadas pela Organização Mundial de Saúde para evitar a contaminação da população geral:

  • o isolamento social, que tem se mostrado uma medida bastante eficaz. Portanto, permaneça em casa e respeite as orientações dos órgãos de saúde locais.
  • lavar as mãos com água e sabão rigorosamente, ou seja higienizar dedos, unhas, punho, palma e dorso das mãos
  • higienizar produtos, sacolas e outros itens antes de entrar em casa
  • álcool gel para desinfecção das mãos e objetos
  • para a desinfecção da casa e de superfícies, a água sanitária pode ser usada (1 parte de água sanitária para 9 partes de água)
  • alguns municípios do Brasil já têm determinado a obrigatoriedade do uso de máscaras faciais por toda a população! Mas lembre-se que o uso de máscara apenas, não garante proteção contra a infecção. As medidas preventivas mais eficazes são evitar aproximação e contato com outras pessoas e realizar boa higiene das mãos.
  • caso não more sozinho e apresente sintomas gripais, usar máscara, manter distância mínima de 1 metro dos demais moradores, não compartilhar copos, talheres, toalhas ou quaisquer objetos de uso pessoal.

Além disso, é importante manter a vacinação contra gripe (Influenza) e Pneumococo em dia, quando indicado pelo Ministério da Saúde!

Devo ficar em casa ou posso sair para uma caminhada?

As orientações para pacientes com Doença de Parkinson são as mesmas que para a população em geral. Portanto, siga as orientações dos órgãos de saúde responsáveis pela sua região. No momento, o Governo do Estado de São Paulo orienta a população a permanecer em casa e evitar a todo custo contato com outras pessoas fora do convívio doméstico (chamado isolamento social).

Por outro lado, a atividade física é extremamente importante e deve ser incentivada. Portanto, na medida do possível, mantenha atividade física em casa, no jardim, e se necessário sair de casa, mantenha distância mínima de 1 a 2 metros de outras pessoas e use máscara de proteção. Evite sempre que possível frequentar supermercados, locais de aglomeração e usar transporte público. Para fazer compras, peça ajuda para pessoas mais jovens da família ou vizinhos. Lembre-se: mantenha-se ativo com segurança!

Tenho mesmo que evitar contato com familiares e amigos?

Como orientado anteriormente, no momento devemos manter o distanciamento social e evitar contato com familiares e amigos fora do convívio domiciliar, ou seja, que morem em outro endereço.

Caso não more sozinho e algum dos moradores apresente sintomas gripais (febre, tosse seca, dificuldades respiratórias), é preciso entrar em contato com o serviço de saúde local para orientações médicas. Neste contexto, evitar compartilhamento de utensílios domésticos e de higiene pessoal é imprescindível. Até que seja esclarecido o problema, o uso de máscara pela pessoa sintomática pode evitar o contágio dos outros moradores. Todos os moradores devem respeitar o período de quarentena (mínimo de 14 dias, ou conforme orientação médica), mesmo sem apresentar os sintomas.

Lista com telefones de Serviços de Saúde dedicados à Covid-19

Como proceder com retornos agendados para ajuste de medicações ou acompanhamento?

Em caso de consultas de retorno ou seguimento previamente agendadas, você deverá entrar em contato com seu médico para orientações. Muitos serviços e consultórios médicos têm oferecido atendimento por telemedicina (telefone ou videoconferência) para orientações e inclusive renovação de receitas. Mantenha o uso das medicações de uso continuo, salvo orientação médica.

Devo interromper os programas de reabilitação com fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia?

No momento, serviços considerados “não essenciais” estão temporariamente suspensos em diversos estados do país, e isso inclui as clínicas de reabilitação. No entanto, sempre que possível, os programas de reabilitação não devem ser interrompidos. Muitos destes profissionais também estão oferecendo orientação e acompanhamento por meio de sistemas de telemedicina. Portanto, entre em contato com seu terapeuta e verifique a possibilidade de dar continuidade às atividades em casa, mesmo que com orientação a distância. Visitas a domicílio devem ser evitadas, porém caso seja necessário a reabilitação presencial, orientações de prevenção de contágio devem ser respeitadas.

Sei que existem alguns medicamentos para tosse e resfriado que devem ser evitados por pacientes com Parkinson. O que devo fazer em caso de sintomas de gripe?

Exatamente. Alguns medicamentos para gripe usados pela população em geral e normalmente vendidos em farmácias sem receita devem ser EVITADOS por pacientes com Parkinson.  Isso porque, essas medicações podem interagir de forma perigosa com medicações antiparkinsonianas, principalmente as do tipo inibidores da MAO (monoamina oxidase), por exemplo: rasagilina, selegilina, safinamida.

Portanto, em caso de sintomas gripais, além de informar o serviço de saúde local, entre em contato com seu médico neurologista para orientações de como proceder quanto às medicações. Para isso, não é necessário sair de casa. Muitos médicos oferecem atendimento via telemedicina (telefone ou videoconferência).

Ouvi dizer que a amantadina também funciona como remédio contra a gripe. É verdade?

Não há qualquer evidência de que a medicação amantadina tenha efeito contra a Covid-19. Portanto, continue o uso regular das medicações e siga as orientações dos órgãos de saúde de sua região.

O que fazer em caso de uso de medicações injetáveis (apomorfina) ou estimulação cerebral profunda (DBS)? E se a bateria do meu DBS precisar ser trocada?

Pacientes que fazem uso de equipamentos que necessitem manutenção não devem se sentir desamparados. Caso tenha consulta de retorno ou seguimento para verificação dos aparelhos, entre em contato com o seu médico neurologista e/ou neurocirurgião. Serviços médicos de urgência e emergência continuam funcionando normalmente em todo o país. Portanto, caso haja necessidade de troca de bateria ou qualquer procedimento de urgência, este poderá ser realizado pela equipe de neurocirurgia que o acompanha, guardadas as orientações de precaução de cada hospital.

Devo suspender visitas domésticas de cuidadores e outros profissionais de saúde?

Como dito acima, quaisquer contatos com pessoas de fora do ambiente domiciliar deverão ser evitados, já que pessoas vindas de fora do domicílio podem trazer o vírus para dentro de casa. No entanto, sabemos que muitos pacientes necessitam de auxílio de profissionais de saúde em suas casas. Nesses casos, a interrupção do serviço prestado poderá ser tão prejudicial quanto o risco de contaminação e infecção pelo novo coronavírus. Portanto, os riscos e benefícios devem ser considerados. Em caso de extrema necessidade, deve-se dar continuidade ao atendimento domiciliar, porém atentando para medidas de precaução e higiene para diminuir ao máximo o risco de contaminação!

Como lidar com o estresse psicológico durante o período de isolamento social?

Todo noticiário em torno da pandemia pelo novo coronavírus, somado ao medo e à impossibilidade de ver e abraçar familiares e amigos podem certamente influenciar negativamente o aspecto psíquico de qualquer pessoa. Portanto, essas dicas de como manter a sanidade mental em tempos difíceis se aplicam não apenas a nossos pacientes de Parkinson, mas à população em geral:          

  • tente manter sua rotina o mais parecida possível com a de anteriormente. Respeite os horários para acordar, para se alimentar, horário de trabalho ou atividades domésticas como de costume.
  • pratique atividade física diária e busque exposição ao sol da manhã por um mínimo de 30 minutos.
  • mantenha a alimentação saudável e boa hidratação.
  • leia, produza algo em casa, use esse tempo de maneira útil.
  • muitos canais via internet têm veiculado shows, concertos, exposições e inclusive programas de atividade física “online”. Estas podem ser excelentes maneiras de ocupar o dia.
  • manter-se informado sobre a atual situação da pandemia e sobre as recomendações dos órgãos de saúde locais é extremamente importante. No entanto, evite que essa se torne a única preocupação  e assunto do dia!
  • evite a qualquer custo notícias veiculadas por mensagens de telefone, Whatsapp, e-mail ou Internet, provenientes de fontes desconhecidas ou informais. A grande maioria dessas informações são incorretas, imprecisas e servem apenas para gerar mais estresse e ansiedade.
  • em caso de dúvidas em relação à pandemia ou sobre como agir, não pergunte ao vizinho! Entre em contato com seu médico ou órgãos de saúde locais!
  • pense que esta é uma situação passageira e que em breve as coisas irão melhorar. Estresse e ansiedade podem agravar os sintomas de Parkinson. Portanto pense positivo!
  • “distanciamento físico”, não significa se isolar completamente! Em um mundo digitalizado como o de hoje em dia, a tecnologia pode ser uma grande aliada. Mantenha contato eletrônico ou por vídeo com familiares e amigos.

Dicas gerais e resumo de tudo isso

  • Ainda sabemos pouco sobre a Covid-19, porém novidades quanto a tratamentos e possibilidade de desenvolvimento de uma vacina têm sido publicados por centros de pesquisa diariamente. Temos que ter paciência  e ficarmos atentos às atualizações.
  • A maioria das pessoas que entram em contato com o novo coronavírus melhoram em poucos dias, porém pacientes idosos ou com outras comorbidades têm risco mais elevado de complicações e formas graves da infecção.
  • Pacientes com Doença de Parkinson têm sim risco aumentado em caso de infecção pelo novo coronavírus, portanto se cuide e siga as orientações dos órgãos de saúde!

Abordei neste texto as principais questões que venho recebendo sobre a Doença de Parkinson e a Covid-19. Como se trata de um assunto novo e complexo, novas dúvidas podem surgir. Caso alguma questão específica não tenha sido tratada aqui, deixe abaixo sua pergunta ou comentário, que entrarei em contato para esclarecer.

Referências

1.         Coronavirus. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019. Accessed April 18, 2020.

2.         Coronavírus Brasil. https://covid.saude.gov.br/. Accessed April 18, 2020.

3.         Deutsche Gesellschaft fuer Parkinson und Bewegugnsstoerungen (https://www.parkinson-gesellschaft.de/corona?jjj=1587393717768)

4.         American Parkinson Disease Association (APDA). (https://www.apdaparkinson.org/article/covid-19-overview-for-pd-community/)


Luciano Furlanetti, MD, PhD, FEBNS

CRM 121.022 | Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) | Membro Titular da Sociedade Alemã de Neurocirurgia (ÄK-DGNC) | Membro Titular da Sociedade Britânica de Neurocirurgia (SBNS)| Doutorado e Pós-Doutorado em Neurocirurgia Funcional – Alemanha/UK | Clinical Fellowship Neurocirurgia Funcional – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido | Clinical Fellowship Neuro-oncologia – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido

Este post tem 2 comentários

  1. Beatriz

    Sobre pessoas que possuem esclerose múltipla e fazem uso de imunossupressores. Alguma recomendação mais específica, a não ser a usual? Pessoas com doenças autoimunes possuem mais dificuldade para se recuperar em uma possível contaminação?

    1. Dr. Luciano Furlanetti

      Olá Beatriz, espero que esteja tudo bem contigo. Obrigado pela pergunta! Estamos preparando um artigo especificamente sobre isso, mas adianto aqui que as recomendações para pessoas em tratamento para esclerose múltipla (EM) são as mesmas que para a população em geral. Importantíssimo manter o isolamento social físico (sem se isolar do mundo!) e higiene adequada das mãos, conforme discutido neste artigo. Realmente não há até o momento qualquer evidência de que esclerose múltipla possa ser um fator de risco para o desenvolvimento de formas graves de Covid-19. Por outro lado, sabemos que pacientes com outras comorbidades e idosos fazem parte do grupo de maior risco. Trabalhos científicos publicados neste mês, mostraram que os pacientes com EM tiveram apresentação e evolução de Covid-19 parecida com as da população em geral. Portanto, além das recomendações usuais, pessoas em tratamento para EM devem sim manter as medicações de uso continuo normalmente para evitar qualquer recaída ou novo surto. Caso apresente sintomas gripais, e principalmente respiratórios, notifique os órgãos de saúde de sua cidade e entre em contato com seu neurologista para orientações. Mais uma dica, muitos pacientes com EM fazem uso de medicação injetável (infusões). Caso você tenha consulta previamente agendada, não deixe de contactar seu médico para saber como proceder! Acho que é isso. Um abraço e se cuide! L. Furlanetti.

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