Epilepsia: Perguntas e Respostas

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Imagem ilustrativa de uma crise convulsiva detectada durante exame de SEEG em caso de epilepsia do lobo frontal (arq. pessoal)

O que é epilepsia?

A epilepsia é definida como uma atividade anormal e não provocada de um grupo de neurônios, que pode se manifestar clinicamente com recorrência de episódios de perda de consciência, crise de ausência, movimentos involuntários de uma parte do corpo ou com crise convulsiva. A epilepsia afeta aproximadamente 1% da população brasileira, com estimativa mundial de cerca de 60 a 100 milhões de pessoas com esse problema de saúde. Existem inúmeras causas e tipos de epilepsia.

A grande maioria dos pacientes apresenta bom controle de crises com um tratamento medicamentoso adequado. No entanto, sabemos que cerca de 30% dos pacientes com epilepsia tem dificuldade de manter as crises sob controle apenas com remédios. Portanto, quando o paciente já está em uso de duas ou mais medicações e começa a haver falha do controle de crises, com ocorrência de uma ou mais crises por mês por um período de mais de 18 meses, a epilepsia é classificada como epilepsia de difícil controle. Nesses casos, uma investigação mais aprofundada e outras formas de tratamento se fazem necessários. Apesar do nome, mesmo casos de epilepsia de difícil controle podem ser tratados, com métodos como neuromodulação e cirurgia.

Qual a diferença entre crise convulsiva e epilepsia?

Nem todas as convulsões são causadas por epilepsia. Elas podem ocorrer devido a várias condições, como febre alta, lesões cerebrais, distúrbios metabólicos, problemas de saúde súbitos, entre outros fatores. A epilepsia é uma condição neurológica crônica caracterizada por uma predisposição a ter convulsões recorrentes. Enquanto isso, uma convulsão é um evento súbito e temporário que não necessariamente irá se repetir. Uma convulsão é caracterizada por perda de consciência, contrações musculares involuntárias, aumento da salivação e descontrole esfincteriano.

Nem todas as convulsões são consideradas epilepsia, mas muitos casos de epilepsia se manifestam por meio de convulsões. É fundamental que um médico avalie a condição para determinar se é epilepsia ou se as convulsões são sintomas de outra causa subjacente.

Quais os sintomas mais frequentes de epilepsia?

Existem diversos tipos e apresentações clínicas diferentes de epilepsia. Essa variação acontece por diversos fatores como o tipo e causa da doença, localização da área cerebral envolvida, idade da pessoa. Da mesma forma, os sintomas também podem variar. Em geral, os sintomas incluem as crises convulsivas, podendo ser acompanhadas ou não de perda de consciência, movimentos involuntários, hiperssalivação. A crise de ausência, quando a pessoa fica com o olhar fixo “para o nada”, “desligada” do que está acontecendo, pode ser mais difícil de ser notada. Muitas vezes, a sensação de desconforto abdominal, ondas de frio ou calor e arrepios podem anteceder a crise. Para esses sintomas premonitórios, dá-se o nome de aura.

Qual a causa da epilepsia

As causas podem ser diversas, incluindo lesões cerebrais, tumores do sistema nervoso, doenças genéticas, infecções, distúrbios do desenvolvimento cerebral. Há ainda situações em que não se consegue determinar uma causa específica ou encontrar uma alteração cerebral visível em exames radiológicos para um quadro de epilepsia.

Como é diagnosticada a epilepsia

Geralmente, o diagnóstico é feito com base no histórico médico, exames neurológicos, eletroencefalograma (EEG) e exames radiológicos. Em casos de epilepsia de difícil controle, técnicas avançadas de exames de imagem, como a ressonância magnética, o PET e o SPECT, além de exames neurofisiológicos como o eletroencefalograma de superfície e invasivo (SEEG) podem auxiliar no diagnóstico preciso da origem das crises.

O que é esclerose mesial temporal?

A esclerose mesial temporal, também conhecida como esclerose hipocampal, é uma condição neurológica na qual há uma cicatrização e endurecimento (esclerose) do tecido numa região do cérebro conhecida como lobo temporal medial. Essa condição é frequentemente associada à epilepsia, especialmente à epilepsia do lobo temporal, que é a forma mais comum de epilepsia focal.

A causa da esclerose hipocampal não é bem definida, sendo que até 10% dos adultos com esclerose mesial temporal apresentam a alteração bilateralmente, apesar dos sintomas poderem ser unilaterais. Um terço dos pacientes com epilepsia refratária do lobo temporal e esclerose mesial apresentam histórico de crises febris na infância, porém não há uma associação causal estabelecida.

Os sintomas podem variar dependendo da gravidade da esclerose e do impacto nas funções cerebrais. Em muitos casos, os principais sintomas são crises parciais complexas, que envolvem alterações no comportamento e na consciência, como movimentos automáticos, confusão, sensações estranhas ou memórias vívidas.

Imagem de ressonância magnética de crânio mostrando esclerose hipocampal à direita
Imagem de ressonância magnética de crânio mostrando esclerose hipocampal à direita (seta)

O diagnóstico geralmente envolve exames de imagem, como ressonância magnética do cérebro, que podem mostrar alterações no lobo temporal, além de exames eletroencefalográficos (EEG) para identificar atividade elétrica anormal no cérebro. O tratamento pode incluir medicamentos antiepilépticos para controlar as convulsões. Em casos de epilepsia resistente ao tratamento medicamentoso, a cirurgia pode ser considerada para remover a área afetada do cérebro, especialmente se a esclerose mesial temporal estiver causando crises frequentes que afetam significativamente a qualidade de vida do paciente.

Como é o tratamento da epilepsia

O tratamento varia de acordo com a gravidade e a causa da epilepsia. Pode envolver medicamentos antiepilépticos para o controle de crises, dieta cetogênica ou até mesmo cirurgia. As modalidades de tratamento cirúrgico podem ter como objetivo:

  • retirar uma área provocadora de crise
  • desconectar regiões, com intuito de diminuir o espalhamento de atividade epiléptica pelo cérebro
  • implante de dispositivos de neuromodulação, como o DBS (estimulação cerebral profunda) e o VNS (estimulador de nervo vago), para melhorar o controle de crises
Planejamento de estereoencefalografia (SEEG) para determinação da área cerebral acometida (esquerda); Foto intraoperatória mostrando monitorização de funções neurológicas e mapeamento cerebral durante cirurgia de epilepsia
Planejamento de estereoencefalografia (SEEG) para determinação da área cerebral acometida (esquerda); Foto intraoperatória mostrando monitorização de funções neurológicas e mapeamento cerebral durante cirurgia de epilepsia

Quando há indicação de cirurgia para o tratamento da epilepsia?

Em casos de epilepsia de difícil controle em que o tratamento com medicamentos não seja eficaz, muitos pacientes podem se beneficiar de tratamento cirúrgico. Nestes casos, uma avaliação ampla e pormenorizada, por equipe multidisciplinar especializada no manejo da epilepsia, faz-se obrigatória para avaliar o real benefício e indicação precisa do procedimento. O tratamento cirúrgico é mais eficaz quando a crise se origina de uma determinada região do cérebro apenas. As diferentes técnicas de cirurgia são empregadas de acordo com a localização, o tipo de crise e a idade do paciente.

As principais técnicas de cirurgia de epilepsia empregadas atualmente são:

  • estimulação do nervo vago (VNS)
  • implante estereotáctico de eletrodos para eletroencefalograma (SEEG)
  • ressecção microcirúrgica
  • calosotomia
  • hemisferotomia
  • lesão térmica intersticial (LITT) 
  • estimulação cerebral profunda (DBS)

É possível fazer cirurgia de epilepsia no Brasil?

Sim, no Brasil temos acesso aos melhores métodos de investigação e tratamento de epilepsia, inclusive cirúrgicos. O tratamento da epilepsia pode ser realizado em alguns centros de referência do SUS, ou também via convênios, com cobertura regulamentada pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

O que é o VNS e para que serve?

Desde 1997 a estimulação do nervo Vago, também chamada VNS (do inglês, Vagus Nerve Stimulation) vem sendo empregada no manejo da epilepsia de difícil controle. O nervo Vago tem origem em uma região do encéfalo chamada bulbo e tem inúmeras funções. Trata-se de uma estrutura de extrema importância do sistema nervoso autonômico, provendo inervação parassimpática para o coração, pulmões, sistema gastrointestinal, além de inervação sensitiva para regiões do ouvido e também inervação motora para músculos da laringe, responsáveis pela produção da voz.

Trabalhos mostram que o VNS pode reduzir em média 50% da intensidade e frequência de crises convulsivas em pacientes com epilepsia de difícil controle. Em 2011, Elliot et al1 mostraram eficácia crescente ao longo dos anos de tratamento com o VNS, em que pacientes apresentavam 36% de redução de crises nos primeiros 6 meses após cirurgia, 58% após 4 anos e 75% após 10 anos de tratamento. Portanto, apesar de não ser um tratamento curativo, tem se mostrado extremamente eficaz, mesmo que algumas vezes os resultados apareçam ao longo do tempo.

Figura ilustrativa do sistema de estimulação do nervo vago, assim como o tablet para ajuste de parâmetros de estimulação.
Figura ilustrativa do sistema de estimulação do nervo vago, assim como o tablet para ajuste de parâmetros de estimulação.

O sistema é composto por um delicado eletrodo, que é colocado cirurgicamente ao redor do nervo vago na região do pescoço, e conectado a um marca-passo totalmente implantado sob a pele logo abaixo da clavícula. A cirurgia é realizada em centro cirúrgico hospitalar, em anestesia geral, por neurocirurgião com experiência em VNS. Após a cirurgia o paciente deve ser acompanhado pelo neurologista especialista em epilepsia em conjunto com o neurocirurgião para eventuais ajustes da medicação antiepiléptica e dos parâmetros de estimulação.

Em 2005, a técnica de VNS recebeu licença para ser utilizado no tratamento de depressão refratária. Apesar de comprovada eficácia em uma parcela dos pacientes, estudos randomizados de grande porte avaliam atualmente o real impacto da estimulação do nervo vago no tratamento da depressão.

O que é o SEEG e para que serve?

SEEG é a sigla para estereoencefalografia, que nada mais é que um eletroencefalograma em que os eletrodos para captação de atividade cerebral são posicionados no cérebro, nas proximidades das áreas suspeitas de serem causadoras de epilepsia. A diferença entre o SEEG e o EEG de superfície é a resolução espacial e a especificidade dos métodos. Os dados captados por um EEG de superfície são muito abrangentes e por isso muitas vezes incapazes de definir o local de origem da epilepsia. Já no caso do SEEG, pelo fato dos eletrodos estarem em íntimo contato com o tecido cerebral, as informações quanto a origem e propagação das crises são mais precisas, permitindo um diagnóstico mais certeiro e melhor planejamento do tratamento.

O SEEG é um método invasivo de investigação, pois os eletrodos de registro são inseridos cirurgicamente nas áreas suspeitas de início e propagação de crises. Um bom planejamento é fundamental para que a investigação seja efetiva e possa orientar o tratamento, que pode ser cirúrgico (ressectivo) ou neuromodulatório.

Planejamento para implante de eletrodos de SEEG para investigação de epilepsia refratária (arquivo pessoal)
Planejamento para implante de eletrodos de SEEG para investigação de epilepsia refratária (arquivo pessoal)

Quando há indicação de DBS em epilepsia?

A estimulação cerebral profunda (DBS) é um método de tratamento neurocirúrgico que vem sendo utilizado no tratamento de diversas doenças do sistema nervoso há mais de 30 anos. As principais indicações para o tratamento com DBS são a Doença de Parkinson, o tremor essencial e a distonia, sendo que em 2018 o método foi também aprovado para o tratamento da epilepsia de difícil controle. Estudos mostram que pacientes com epilepsia focal ou multifocal refratária, que não possam ser submetidos ao tratamento cirúrgico para retirada da área de origem de crise podem se beneficiar do tratamento com DBS, em que metade dos pacientes apresentam pelo menos 50% de redução da frequência e intensidade das crises2. Após 10 anos de seguimento, os pacientes operados apresentaram 75% de redução (média) de crises, mostrando efeito favorável a longo prazo, assim como o que se observa com a terapia de VNS3.

Pessoas com epilepsia podem ter uma vida normal?

Sim, muitas pessoas com epilepsia levam vidas normais com o tratamento adequado. No entanto, é importante gerenciar a condição e seguir as recomendações médicas. Durante fases de ajuste de medicamentos ou de adequação de tratamento pode ainda existir risco aumentado de crises, portanto é importante que se evite atividades de risco, tais como dirigir veículos automotores e nadar sem supervisão.

Como ajudar alguém durante uma crise convulsiva?

Se você presenciar alguém tendo uma crise convulsiva, mantenha a calma para poder ajudar da melhor maneira.

Posição lateral de segurança
Posição lateral de segurança
  1. Coloque a pessoa de lado para prevenir sufocamento.
  2. Afaste objetos perigosos, proteja a cabeça.
  3. Não coloque nada na boca da pessoa durante a convulsão.
  4. A lingua não enrola! Não coloque o dedo na boca da pessoa em crise.
  5. Acione socorro ou ligue 192.

É possível previnir epilepsia?

Em muitos casos, a epilepsia não pode ser prevenida. No entanto, certos tipos de epilepsia podem ser previnidos evitando ou tratando suas causas. Evitar lesões cerebrais ou tratar infecções cerebrais, por exemplo; manter um estilo de vida saudável, evitando abuso de álcool e outros agressores do sistema nervoso. Além disso, seguir o tratamento proposto e tomar as medicações corretamente podem reduzir o risco de recorrência de crises.

Epilepsia tem cura?

Em alguns casos, a epilepsia pode ser controlada com tratamento, levando a longos períodos sem convulsões. Em outros casos, ela pode ser mais difícil de controlar, mas é possível gerenciar os sintomas com eficácia. Existem ainda situações em que o tratamento cirúrgico pode ser curativo. É essencial consultar um médico especialista para obter informações específicas sobre a epilepsia, já que cada paciente é único, cada caso pode ser diferente e requer abordagens de tratamento personalizadas.


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Luciano Furlanetti, MD, PhD, FEBNS

CRM 121.022 | Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) | Membro Titular da Sociedade Alemã de Neurocirurgia (ÄK-DGNC) | Membro Titular da Sociedade Britânica de Neurocirurgia (SBNS)| Doutorado e Pós-Doutorado em Neurocirurgia Funcional – Alemanha/UK | Clinical Fellowship Neurocirurgia Funcional – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido | Clinical Fellowship Neuro-oncologia – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido

  1. Elliot et al. 2011 ↩︎
  2. Fisher et al. SANTE, 2010 ↩︎
  3. Salanova et al., 2021 ↩︎

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