Estimulador do Nervo Vago: O que é e como funciona o VNS?

Você está visualizando atualmente Estimulador do Nervo Vago: O que é e como funciona o VNS?
Figura ilustrativa do sistema de estimulação do nervo vago para o tratamento da epilepsia

O nervo Vago é um nervo craniano, que tem origem em uma região do cérebro chamada bulbo, e desempenha inúmeras funções. Parte do sistema nervoso autonômico, o nervo vago é uma estrutura de extrema importância, provendo inervação parassimpática para o coração, pulmões, sistema gastrointestinal, além de inervação sensitiva para regiões do ouvido e também inervação motora para músculos da laringe, responsáveis pela produção da voz. Desde 1994, a estimulação do nervo Vago, também chamada VNS (do inglês, Vagus Nerve Stimulation) vem sendo empregada no manejo da epilepsia de difícil controle.

A epilepsia é chamada de difícil controle quando o paciente já faz uso de duas ou mais medicações e começa a haver falha do controle de crises, com ocorrência de uma ou mais crises por mês por um período de mais de 18 meses. Em algumas situações, a neuromodulação com Terapia VNS pode ser indicada.

Terapia VNS

O sistema consiste em um eletrodo delicado, que é colocado cirurgicamente ao redor do nervo vago na região do pescoço. Esse eletrodo é conectado a um gerador (como um marca-passo) totalmente implantado sob a pele logo abaixo da clavícula. A cirurgia é realizada em centro cirúrgico hospitalar, em anestesia geral, por especialista em neurocirurgia com experiência em VNS e cirurgia de epilepsia. Após o procedimento, o paciente deve ser acompanhado pelo neurologista especialista em epilepsia em conjunto com o neurocirurgião para eventuais ajustes da medicação antiepiléptica e dos parâmetros de estimulação.

Quando estimulado, o nervo vago altera a função de estruturas do tronco encefálico e do cérebro, com a capacidade de reduzir a frequência e a intensidade de crises convulsivas. Há estudos mostrando também a eficácia da estimulação do nervo vago em outras condições neurológicas e psiquiátricas, tais como no tratamento da depressão refratária, na reabilitação de acidente vascular cerebral (AVC) e no tratamento da dor crônica.

Dr Luciano Furlanetti fala sobre a Estimulação do Nervo Vago, conhecido como VNS, para tratamento da epilepsia de difícil controle

Quem pode fazer uso da Terapia VNS?

A terapia VNS pode ser empregada tanto em pacientes adultos quanto em pediátricos. Para pacientes com diagnóstico de epilepsia, existe indicação em casos de epilepsia multifocal ou generalizada, refratária ao tratamento medicamentoso e que não seja passível de tratamento neurocirúrgico para remoção do foco epiléptico. A terapia VNS não cura a epilepsia, mas tem o potencial de reduzir a frequência e a intensidade das crises em pacientes com epilepsia de difícil controle. Estudos mostram que a eficácia do tratamento com a estimulação do nervo vago aumenta com o passar dos anos de terapia, provavelmente devido a um efeito neuromodulatório no sistema nervoso central.

Publicações Científicas sobre VNS

inúmeras publicações sobre a eficácia da Terapia VNS de centros de pesquisa do mundo todo.

Em 2014 publicamos1 a casuística de 36 pacientes pediátricos tratados com VNS, sendo que 55.4% apresentaram redução de pelo menos 50% da frequência de crises epilépticas. 11.1% dos pacientes tiveram 95% de melhora nesse parâmetro analisado. Houve ainda redução do número de traumatismos e hospitalizações decorrentes de crises epilépticas, assim como melhora do humor e atenção nos pacientes com VNS em comparação ao grupo controle.

Print da capa da publicação em inglês "Vagus nerve stimulation in pediatric patients" na revista Epilepsy & Behavior

VNS para Depressão e AVC?

Fora do Brasil, a técnica de VNS tem aprovação desde 2005 para ser utilizada no tratamento de depressão refratária. Ou seja, para pacientes com diagnóstico já estabelecido de depressão que não experimentam melhora de sintomas mesmo após tentativas de tratamento com diferentes classes de medicamentos antidepressivos, psicoterapia e outras intervenções terapêuticas, a neuromodulação invasiva pode ser indicada. Nesses casos, a indicação cirúrgica mais comum atualmente é a estimulação cerebral profunda, mas a estimulação do nervo vago também pode ser considerada. Mais recentemente, em 2021, o VNS foi regulamentado pelo FDA – o equivalente a ANVISA nos Estados Unidos – para aplicação em reabilitação de pacientes com sequelas de AVC.

É importante ressaltar que cada paciente é único e o sucesso de terapias neuromodulatórias, tais como o estimulador vagal, a estimulação cerebral profunda, ou ainda o estimulador medular, dependem de outros fatores além da cirurgia em si. Uma avaliação pré-operatória pormenorizada, a seleção do melhor tratamento para cada paciente de maneira individualizada e o acompanhamento regular após a cirurgia são de extrema importância para os melhores resultados a longo prazo.


Gostou do texto? Tem alguma sobre a terapia VNS? Deixe um comentário abaixo ou agende uma avaliação. Você ainda pode checar meus outros textos clicando aqui ou meus vídeos clicando aqui.

Luciano Furlanetti, MD, PhD, FEBNS

CRM 121.022 | Membro Titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) | Membro Titular da Sociedade Alemã de Neurocirurgia (ÄK-DGNC) | Membro Titular da Sociedade Britânica de Neurocirurgia (SBNS)| Doutorado e Pós-Doutorado em Neurocirurgia Funcional – Alemanha/UK | Clinical Fellowship Neurocirurgia Funcional – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido | Clinical Fellowship Neuro-oncologia – King’s College Hospital, Londres, Reino Unido

  1. Vagus nerve stimulation in pediatric patients: Is it really worthwhile? Vera C Terra, Furlanetti L et al. Epilepsy Behav. 2014 Feb. ↩︎

Perguntas ou comentários?